Pandemia e meio ambiente: toda ação tem uma reação

02 de julho de 2020

Com o isolamento social, a circulação nas ruas foi interrompida e o meio ambiente diretamente afetado, de forma positiva e negativa.

A pandemia causada pelo novo coronavírus trouxe uma reação mundial. Para se proteger da transmissão do vírus ainda sem cura conhecida, a população foi orientada a manter-se em isolamento social. Cidades, estados e países ficaram, e alguns ainda continuam, sem movimentação nas ruas, comércios, parques e evitando qualquer aglomeração humana.
Para garantir a segurança e saúde de seus cidadãos, muitos países optaram por estabelecerem restrições para evitar que haja maior contaminação e que o sistema de saúde fosse levado ao colapso ou, pior, a um número elevado de mortos.
Devido aos novos hábitos adotados pelos governos e suas respectivas populações, outras áreas também foram afetadas. Principalmente pela falta de circulação de pessoas, uma das afetadas foi a economia. Mas, no entanto, outro setor também sofreu um impacto, no bom e mau sentido: o meio ambiente.
Ele, dentro de toda a crise sanitária, foi uma das áreas que mais sofreu alterações. A mudança de hábitos dos seres humanos fez com que os rios, ares, produção de lixo e desmatamento fossem atingidos de maneira distinta do que eram antes.
Por isso, é importante analisar ponto por ponto o que a falta de interação humana trouxe para o meio ambiente em todo o planeta.
Produção de lixo
Ao mesmo tempo que a interdição de funcionamento de bares e restaurantes fez com que menos resíduos fossem gerados, o isolamento tem feito com que as pessoas produzam mais lixo doméstico. A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) realizou um panorama sobre resíduos sólidos no Brasil e constatou que em 2018 os brasileiros produziram 79 milhões de toneladas de lixo domiciliar. Diante da situação atual, a associação estima que em 2020 haverá um aumento de 15 a 25% na qualidade de lixos sólidos domiciliares.
Mesmo que o nível de lixo produzido pelos comércios tenha caído, há uma preocupação com a falta de controle de resíduos domiciliares. De acordo com o engenheiro e coordenador de Projetos Sustentáveis da Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo do Paraná, Charles Carneiro, a sociedade, em geral, não consome os produtos da mesma maneira que o os bares e restaurantes.
Isso significa que há muito desperdício de comida, algo que não acontece nos comércios, os quais controlam os gastos de forma organizada e comedida. Além disso, a mudança de hábito e compra em excesso de estoque de produtos também eleva a produção diária.
A produção de lixo hospitalar também aumentou de 10 a 20 vezes, segundo a Abrelpe. O frenético movimento nos hospitais e uso de materiais descartáveis pela população fez com que a produção desse tipo de resíduo também se elevasse.
Para diminuir um pouco esse impacto, algumas práticas se tornam importantes, como, por exemplo, comprar com responsabilidade. Mas, além disso, o cuidado com o descarte também deve ser exaltado.
Por isso, separar o lixo orgânico e reciclável é essencial. O correto descarte de máscaras e luvas no lixo comum e devido cuidado para que os trabalhadores de limpeza urbana não tenham contato com isso também é imprescindível. É recomendado também o uso de plásticos resistentes para que o saco não rasgue e o lixo de dentro caia.
Qualidade do ar
Além da falta de circulação de automóveis em vias públicas, a quarentena também diminuiu a produção nas indústrias. Na China, o consumo de combustível fóssil declinou com o fechamento de fábricas, por exemplo. Isso fez com que a produção de dióxido de carbono (CO²) diminuísse no país, segundo os cálculos de Lauri Myllyvirta, do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (Crea), com sede nos Estados Unidos.
O mesmo estudo constatou que o país asiático emitiu 150 milhões de toneladas métricas (mtm) de CO² a menos em fevereiro deste ano, quando a China ainda era o epicentro da doença e havia um forte isolamento social no país, do que em 2019. Essa redução significou 25% a menos nas emissões do país e 6% de toda a produção global.
Para ilustrar a ausência da circulação do homem na China, o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, Petteri Taalas, divulgou imagens de satélite da qualidade do ar na China em 30 de janeiro deste ano. Ele comparou as imagens com o as do mesmo dia do ano anterior, durante uma apresentação na sede da ONU, em Nova York.
No Brasil a situação também não foi diferente. Em março de 2020, quando a pandemia começava no país e a população de São Paulo estava em quarentena, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) registrou qualidade do ar boa para os poluentes primários, que são emitidos diretamente pelas fontes poluidoras.
O consumo de combustíveis fósseis também despencou. De acordo com a Fecombustíveis (Federação Nacional do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes), os postos de gasolina vêm sentindo os efeitos das medidas de isolamento, já que as vendas em São Paulo foram 39% menores do que a média histórica para o município. No mesmo momento, Goiânia registrou queda de 42%; Porto Alegre de 26%, e Belo Horizonte de 19%.
Mas, além dos automóveis, a produção de CO² também é causada pelo consumo de energia elétrica. No Brasil, a notícia foi positiva: a média do consumo de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) caiu 14%, de acordo com estudo realizado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). O período comparado é de quatro semanas após a implementação de medidas de combate ao novo coronavírus com os primeiros 20 dias de março.
Além do Brasil e da China, outros lugares do mundo também notaram diferenças no dia a dia. Os moradores de Jalandhar puderam avistar a montanha Dhauladhar, na índia, nitidamente. Ela faz parte da cordilheira do Himalaia e fica a 230 km de distância. Segundo a imprensa local, a montanha não era vista assim desde a Segunda Guerra Mundial, em 1940.
Mesmo que em um curto período, a ausência do homem causa drásticas transformações para o meio ambiente. No entanto, quando a situação voltar ao normal e as pessoas retomarem à rotina, essas alterações podem desaparecer. É preciso, portanto, que a população crie uma consciência e entenda seu papel, bem como o quanto o meio ambiente pode sofrer, positiva ou negativamente, com suas ações.
Desmatamento
Quando o assunto é desmatamento, não há como não associar à Amazônia. Com o crescimento da pandemia no Brasil, além dos casos confirmados, o país viu outros números crescerem durante este período. O desmatamento na maior floresta tropical do mundo cresceu 63,75% do mês de abril para março.
Se comparado ao mesmo período do anterior, os números são ainda mais altos: registram 24,2% de aumento. Este é o resultado dos dados do sistema Deter-B, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE.
Além do aumento no mês de abril, o estudo também mostra que o desmatamento cresceu no primeiro quadrimestre de 2020. Se comparado a 2019, o aumento foi de 55%. Para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a possível razão para esse crescimento é a diminuição dos esforços de combate aos crimes ambientais durante a pandemia.
A proteção desses locais de desmatamento foi reduzida porque há menos fiscais trabalhando em campo, segundo o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Olivaldi Azevedo. Como se trata de um vírus altamente contagioso, os fiscais que estão enquadrados no grupo de risco foram retirados do serviço em campo. Segundo ele, um terço dos profissionais têm quase 60 anos ou problemas médicos.
Mas, além da diminuição do pessoal, as condições de trabalho também podem estar complicadas atualmente. Muitos hotéis e restaurantes estão fechados, além do cancelamento de voos em massa. Isso faz com que os profissionais não tenham onde ficar ou como ir para o local da fiscalização.
Buscando resolver isso, o Ibama passou a alocar veículos e priorizar os transportes terrestres. No entanto, alguns agentes levam dias dirigindo até chegarem aos seus pontos na Amazônia. Isso causa um grande atraso nas ações dos profissionais.
Se tratando das atividades ilegais no local, alguns pesquisadores acreditam que a recessão pode abaixar o preço e a procura por madeira e terras ilegais. Porém, outros estudiosos, como Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon, instituto sem fins lucrativos, acredita que prever a ação criminosa é difícil.
A diminuição do real pode fazer com que a exportação dos agricultores brasileiros aumente, segundo Barreto. Já que, um baixo preço resulta em uma demanda alta. Por isso, novas terras ilegais para a agricultura tendem a ser procuradas com maior frequência.
Portanto, sem a ação combativa do homem, alguns locais sofrem com o crime e o desmatamento. Situações como essa mostram que a atividade dos fiscais na Amazônia é extremamente importante para impedir que a floresta tropical desapareça cada vez mais do mapa.
Consumo consciente e com menos desperdícios
No final de abril, o Banco Central (BC) divulgou dados que apontam uma mudança no perfil de consumo nesta quarentena. O setor de vestuário e calçados teve uma queda de 88,8% nas compras com cartão de débito, segundo o BC.
No Nordeste a redução foi mais intensa: teve queda de 31%. No Sul, a redução foi de 29,6%; no Sudeste, de 26,9%; no Centro-Oeste, de 23,6% e no Norte a queda foi de 21,8%. Para os especialistas, isto pode significar uma mudança na forma de consumir por conta do isolamento social.
Como a população não está saindo de casa, muitas compras que eram feitas no impulso da passagem não são mais realizadas. No entanto, a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) e a Konduto registraram um aumento de 40% no número de vendas online.
Dentre as vendas, os setores que mais tiveram aumento foram os de calçados (99,44%), bebidas (78,90%), eletrodomésticos (49,29%), autopeças (44,64%), supermercado (38,92%), artigos esportivos (25,75%), móveis e decoração (23,61%) e moda (18,38%).
Esses números podem ter relação com o aumento médio de 400% no número de lojas que abriram o comércio eletrônico por mês durante a quarentena. No início da segunda quinzena de março, a média era de 10 mil aberturas por mês. No entanto, o número saltou para 50 mil quando as ações para conter o novo coronavírus surgiram.
O levantamento indicou que mais de 100 mil lojas passaram a vender seus produtos na internet. Os setores que mais aderiram ao novo formato foram os de moda, alimentos e prestação de serviços.
Apesar de não estarem em circulação pelas ruas, as pessoas continuam comprando. E, com isso, desmistificando a iniciativa de que a população está à procura de um consumo mais consciente e sem desperdícios.
A situação pode mudar depois da Covid-19?
Com as mudanças radicais de hábitos que a população mundial foi obrigada a adotar para conter a transmissão no novo coronavírus, a pergunta que fica é: as pessoas vão mudar seu comportamento e cuidar mais do meio ambiente?
Segundo o doutor em Geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Wilson Roseghini, prever isso é difícil. Mas, com base na produção de lixo gerada dentro de casa e o mau uso de água neste momento de estiagem, os velhos hábitos podem não mudar.
Apesar disso, ele acredita que o reforço de conscientização pode fazer alguma diferença. Nesta situação atípica, ele vê um momento de aprendizagem, onde é preciso repassar a conscientização para que haja melhor aceitação. Para ele, este é um momento de criar ações preventivas, ao invés de remediar problemas. Isso, se adequa tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.
 

Mellanie Anversa

Jornalista freelancer e fotógrafa

Mellanie Anversa é jornalista freelancer e fotógrafa. Ela atuou como repórter de notícias factuais no jornal Gazeta do Povo e também como assessora de imprensa na NoAr Comunicação. Durante seu período acadêmico, desenvolveu um livro-reportagem sobre pessoas que moram em uma comunidade, intitulado como A Favela Mora ao Lado.

               

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