Green Bonds – Uma nova forma sustentável de financiamento

20 de agosto de 2020
“A nossa geração pode não ser capaz de solucionar todos os problemas relacionados à mudança climática, mas nós podemos deixar um planeta melhor do que o que encontramos para as nossas crianças” (Judith Moore, ex-Diretora de Responsabilidade Corporativa do Banco Mundial).
Eu não sei como você enxerga o progresso da humanidade até hoje, mas eu vejo que as pessoas agem da melhor forma que elas conseguem, com as ferramentas que possuem, e que, à medida que novas necessidades surgem, elas se adaptam e melhoram.
Uma prova disso são os Green Bonds (ou Títulos Verdes).
Um pouco de história sobre eles:
O primeiro Green Bond foi criado em 2008, pelo Banco Mundial – o maior banco de desenvolvimento do mundo, cuja prioridade estratégica é, justamente, conectar o mercado de capitais a projetos de desenvolvimento.
A ideia surgiu de um grupo de investidores suecos em 2006, em um momento em que as pautas Mudança Climática e Aquecimento Global estavam em alta. – O “mundo” está tentando manter o Aquecimento Global abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais e a principal forma discutida para se fazer isso é reduzindo a emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE), cujo gás mais abundante é o dióxido de carbono (CO2), produto da queima de combustíveis fósseis.
O grupo sueco queria investir em “portfólios sustentáveis”, mas a única solução que eles encontravam era excluir deste portfólio boas empresas que não tinham “sustentabilidade” como prioridade ou que promoviam a emissão de GEE e não faziam diferente por não terem recursos para isso. Ou seja, faltavam ativos que fossem líquidos, fáceis de entender e confiáveis e que fossem, ao mesmo tempo, financeiramente bons para os investidores e ecologicamente bons para a sociedade.
Foi então que o Diretor de Produtos Sustentáveis da SEB (banco sueco) Christopher Flensborg foi até o Banco Mundial para solucionar esse problema, apoiado por investidores institucionais.
A presidente do Banco Mundial gostou da ideia e, após algumas discussões sobre como deveria ser esse produto (que deveria ser de renda fixa, que não tivesse risco de projeto, nem risco por país e que tivessem as mesmas características com que eles já estavam familiarizados) criaram, finalmente, o primeiro Green Bond do mundo. Hora exata, devido às necessidades mundiais daquele momento.
Cientistas do CICERO (centro internacional de pesquisas climáticas e ambientais da Noruega) deram uma segunda opinião a respeito dos títulos criados e desenvolveram um modelo de melhores práticas: como os Green Bonds deveriam ser feitos e a base de seus princípios; e, junto a outros bancos, estabeleceram as diretrizes que o mercado deveria seguir para que o monitoramento dos projetos pudessem ser feitos independentemente e de forma transparente.
A partir deste momento, o risco climático passou a ser um risco financeiro também e, graças à ciência de dados, pela primeira vez, os investidores puderam (e podem) ver o impacto social que seus investimentos proporcionam.
Isso canalizou uma mudança no comportamento dos investidores desde então. Agora, cada vez mais, eles querem saber para onde o dinheiro investido está indo: não apenas com os Green Bonds, mas com os Social Bonds (títulos sociais) e Sustainable Bonds (títulos sustentáveis) também, e estão perguntando, sobretudo, no que eles estão investindo.
Então, afinal, o que são Green Bonds?
Eles são iguais a todos os outros “bonds” (em português, títulos de dívida), com um único e importante diferencial: o recurso captado só pode ser investido em projetos com benefícios ambientais mensuráveis – auditados e monitorados por organizações independentes – como, por exemplo, melhorias em eficiência energética, controle da produção de poluição, investimento em energia renovável, conservação da biodiversidade e transporte limpo.
Podem ser projetos já existentes ou novos projetos e geralmente são de longo prazo (15 – 20 anos de validade) e os investidores que optam por esse tipo de investimento recebem o capital investido acrescido dos juros pré-determinados (os cupons de juros) no dia do vencimento do título – assim como acontece com os títulos normais.
Além disso, conseguem acompanhar o impacto ambiental gerado através de relatórios disponibilizados no mínimo anualmente pelo emissor do título e a Bloomberg, empresa global de tecnologia e dados que provê informações financeiras para o mercado, anunciou em 2016 que começaria a coletar e publicar dados sobre Títulos Verdes.
A qualidade do monitoramento e a transparência no reporte são fundamentais, uma vez que o ganho reputacional é o principal diferencial desse tipo de título.
Muito bom. O que mais?
Apesar de serem relativamente novos, esses títulos têm crescido exponencialmente. Em 2019 foram emitidos 259 bilhões de dólares em Títulos Verdes no mundo todo e é estimado um total de 350 bilhões para 2020.
O Brasil possui um grande potencial para desenvolver Projetos Verdes, não só nos setores do agronegócio, florestal e de energia, mas, pela necessidade de infraestrutura do país, os setores de transporte, construção civil e saneamento também poderiam receber recursos obtidos por meio de emissões de Títulos Verdes no mercado primário de capitais.
De acordo com um estudo da Climate Bonds Initiative (CBI) – a organização internacional responsável pela mobilização do mercado de capitais para solução de mudanças climáticas –, em julho de 2016, havia no mercado US$ 2,9 bilhões em títulos brasileiros com características ambientais positivas, incluindo aqueles rotulados e não rotulados como Títulos Verdes. De acordo com a CBI, apenas na agricultura, o Brasil tem um potencial de USD163 bilhões em Projetos Verdes até 2030.
Veja abaixo para onde esse dinheiro foi no Brasil até 2016.

Fonte: Guia para Emissão de Títulos Verdes no Brasil – CEBDS 2016

Estes setores são fundamentais para o crescimento econômico do Brasil e sua transição para uma economia de baixo carbono. – Vamos lembrar que o mercado de capitais está se abrindo cada vez mais para os “créditos de carbono” (os certificados emitidos por pessoas ou empresas que reduziram sua emissão de gases de efeito estufa). Imagine quanto o Brasil não tem para ganhar com esses Projetos Verdes! Mas deixemos este assunto para um outro artigo.
E como são esses os projetos?
Alguns exemplos de projetos que podem ser feitos dependendo do setor:
1. No agronegócio:
a. Uso da terra: ampliação do uso de sistemas integrados de produção, recuperação de áreas degradadas e eliminação do desmatamento ilegal.
b. Energia: ampliação da participação das fontes renováveis na matriz energética brasileira e obtenção de ganhos de eficiência energética no setor elétrico.
2. Produtos florestais:
a. Sequestro de carbono: plantação de eucalipto, pinus e outras espécies para fins industriais que possuem uma grande capacidade de armazenar carbono e que fornecem matéria-prima renovável para a geração de energia, em substituição ao uso de fontes fósseis (biomassa e subprodutos, como licor preto).
3. Energia renovável e eficiência energética:
a. Uso e construção de energia eólica
b. Construção de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs)
c. Uso e construção de fontes de energia Solar
d. Uso da biomassa
4. Transporte
a. Soluções ferroviárias e metroviárias
b. Melhoria da logística e transporte de carga
5. Saneamento
a. Abastecimento de água potável e esgoto
6. Outros setores
a. Qualquer empresa que deseje investir em projetos para melhorar sua própria eficiência energética, reduzir o consumo de água, diminuir a emissão de Gases de Efeito Estufa e reduzir geração de resíduos.
E, por fim, alguns casos do nosso país:
• O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) foi o primeiro banco brasileiro a emitir Green Bonds no mercado internacional, cujo título de US$ 1 bilhão tem prazo de sete anos e foi listado na Bolsa Verde de Luxemburgo. Os recursos destinam-se a financiar investimentos relacionados com projetos novos e existentes de energia eólica e solar.
• A Suzano Papel e Celulose, uma das maiores produtoras de papel e celulose brasileiras, emitiu em julho de 2016 seus primeiros Títulos Verdes no valor de US$ 500 milhões. Os recursos da emissão serão usados para atividades de manejo das florestas da empresa (que possuem certificação de manejo florestal atestada), conservação, eficiência energética, tratamento de efluentes e projetos de energia renovável.
• A BRF, empresa do setor alimentício, emitiu títulos de dívida no valor total de EUR 500 milhões em maio de 2015. Foi o primeiro Título Verde de uma empresa brasileira e os recursos destinam-se ao financiamento de projetos com o objetivo de reduzir o consumo de água e eletricidade, diminuir emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e reduzir a geração de resíduos.
Portanto, é possível notar que o mundo, apesar de imperfeito, sempre se mobiliza para melhorar e atender as necessidades mais latentes da sociedade.
É importante as empresas enxergarem que a mudança começou e está sendo monitorada, então, mais do que nunca, a dica é: adaptação e melhorias constantes!
Os consumidores estão pedindo mais responsabilidade com o uso dos recursos e geração de impacto positivo para a sociedade e quem não quiser ficar para trás no mercado deve se atentar para questões ASG (ambientais, sociais e de governança) da própria companhia.

Marina Franco

Engenharia de Produção

Formada em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2017, já trabalhou com logística de estoques na Rumo, com fusões e aquisições no mercado financeiro e marketing na Rappi. Hoje está na cidade natal, Marília, e criou o primeiro e-commerce de joias finas para vendas do atacado do Brasil para a empresa familiar Kyria Joalheiros. Combinando seus dois principais hobbies, escrita e fitness, é autora de um guia digital para pessoas que desejam mudar seu estilo de vida para um que seja mais saudável.

               

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