Educação pra quem pode, trabalho para quem tem juízo!

18 de março de 2021
Até quando será necessário pedir pelo básico? Por direitos assegurados pela constituição? Pelo andar da carruagem, o caminho é longo. No Brasil em que vivemos, uma educação de qualidade, que deveria estar ao alcance de todos, ainda é privilégio de poucos.
É impossível falar de educação no Brasil e manter a calma. Peçam qualquer coisa para mim. Menos isso. De fato, são coisas que não combinam, pelo menos quando olhamos pelo viés de políticas públicas, investimentos e garantia de direitos. É como se não existissem.
Vamos combinar, né, se tem uma coisa que os líderes do nosso país fazem com maestria é deseducar. Parece até que este é programa de governo.
Sou filho de funcionários públicos. Nem ricos, nem pobres. A despeito das experiências limitadas que meus pais tiveram com o aprendizado, sempre priorizaram isso para mim e para minha irmã. E foi a melhor coisa que fizeram.
Minha mãe terminou o ensino médio e fez alguns cursos técnicos. Não entrou na faculdade.
Meu pai concluiu os estudos aos 49 anos, dias antes de morrer. Largou os estudos para ajudar em casa. Saiu e voltou quarenta anos depois com pouca disposição, zero paciência e sem entender por que estava, outra vez, em uma sala de aula.
Ao pensar sobre isso, chego à conclusão de que, de lá pra cá, muita coisa continuou igual. Se melhorou, foi menos do que poderia.
Tanto na década de setenta quanto em 2020 ou 2021, e talvez pelos próximos 50 anos, terminar cada etapa escolar é uma vitória. É matar um leão por dia para não jogar tudo para o alto. O que para alguns parece um caminho tão simples e que só exige disposição – afinal, é só querer - para muitos é uma estrada longa e nada fácil. São percalços como a fome, a necessidade de trabalhar e a falta de apoio.
Dos muitos desafios que a pandemia trouxe, um deles, que não é novidade, ganhou muito mais evidência e tem gerado preocupação. A evasão escolar de crianças e adolescentes, que já era uma triste realidade em 2019, ganhou força em 2020.
Dados da Pesquisa Nacional por amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE, sobre o setor educacional em 2019, mostram que a necessidade de trabalhar, o desinteresse e a gravidez são os principais motivos que levam jovens a abandonar os estudos. A pesquisa mostra ainda que cerca de 50 milhões de jovens com idade entre 14 e 29 anos, aproximadamente 20,2%, deixaram de completar alguma das etapas de educação básica.
Em todas as regiões do país, a necessidade de trabalhar foi a principal justificativa para abandonar os estudos.
Este cenário, que já não era dos melhores, piorou com a pandemia do coronavírus e com as medidas que exigiram o distanciamento social e, consequentemente, aulas no formato remoto.
Um levantamento feito pelo Instituto Datafolha, e divulgado em julho de 2020, mostrou que três em cada dez pais ou responsáveis de estudantes de escolas públicas temem que os jovens desistam dos estudos caso não consigam acompanhar as aulas não presenciais. Este risco aumenta as casas com três ou mais estudantes.
O acesso à internet também se mostra como um dos fatores determinantes para isso. Entre o final de abril e o início de maio de 2020, A União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e o Conselho Nacional de Secretários de Educação fizeram um levantamento que mostrou que 33% dos domicílios brasileiros possuem computador e acesso à rede.
Segundo a Unicef, em um estudo intitulado “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar”, no ano passado cerca de 5,5 milhões de crianças e adolescentes não tiveram acesso à educação. O número de alunos, com idades entre 6 e 17 anos, que abandonaram as instituições de ensino foi de 1,38 milhão, o que representa 3,8% dos estudantes.
Problema antigo
Para o advogado, professor de História e mestre em Direitos Humanos e Políticas Públicas João Henrique Arco-Verde a educação como política social no Brasil é recente. Surgiu durante a década de trinta com o Manifesto dos Pioneiros, que defendia a escola pública como obrigatória, laica e gratuita.
Ele diz que os avanços e rupturas no sistema impedem o estabelecimento de ciclos educacionais de qualidade no Brasil.
“Tivemos grandes avanços nos últimos anos. São avanços que vieram de um olhar mais democrático para a educação. Diminuindo número de analfabetos, aumentando exponencialmente o acesso e avançando na permanência”, explica o professor que aponta, ainda, uma série de fatores que são determinantes quando o assunto é terminar seguir ou não dentro de uma sala de aula como, por exemplo, a desigualdade social, a falta de identificação com a escola e com os métodos usados, a falta de capacitação profissional, a gravidez na adolescência, o trabalho precoce no país e a falta de apoio da família.
Se de um lado aumenta o abandono escolar, do outro diminui o investimento do poder público em educação. Em 2020, o ano mais desafiador para todos os setores, incluindo o educacional, o Ministério da Educação fez o menor investimento da década em educação básica. As informações foram extraídas do 6º Relatório Bimestral da Execução Orçamentária do MEC e apresentadas pela ONG Todos pela Educação.
Segundo a análise de Arco-Verde, a perspectiva de investimento em educação no Brasil é interessante e o percentual destinado é bom. Ele defende uma fiscalização mais rígida e um direcionamento adequado dos recursos.
O que falta no Brasil é qualidade na gestão. Com bons gestores temos bons resultados. O problema é que muitas vezes a gestão educacional é feita por pessoas que não entendem de educação. E por isso, muitas vezes, os processos acabam tendo algumas dificuldades e um resultado que não é aquele que se pretendia”, afirma.
“Então, a gente precisa criar uma cultura de olhar para profissionais capazes de ocupar estes cargos. Precisamos de um planejamento educacional sério e cumprir o que foi determinado no plano nacional de educação, acreditar na democracia participativa e usar estes recursos com moralidade, ética e transparência”, conclui.
Luz no fim do túnel
Diante de tantos desafios históricos em relação à educação, surgia em 2004 uma oportunidade de transformação social em Curitiba com a criação da ONG Passos da Criança, que atende crianças e adolescentes, de 05 a 14 anos de idade, que moram na comunidade Vila das Torres.
A realidade de Adilson Pereira, criador do projeto, era a mesma de muitos jovens daquela época e de hoje também. Aos cinco anos de idade ele foi para as ruas em busca de ajuda para a família. Saiu de casa e viveu desta forma até os 15 anos, quando foi para um abrigo institucional, foi alfabetizado e tornou-se um educador social.
Aos 24 anos, com ajuda de outros voluntários, decidiu criar a instituição que segue firme no propósito e promove o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
“Ela surgiu com a necessidade da própria comunidade que sofre com a desigualdade e a invisibilidade social. Para criar nestas crianças um senso crítico da realidade. Mostramos para elas que são capazes de fazer uma faculdade, ter uma profissão. Queremos que estas crianças saiam daqui mais preparadas para enfrentar as dificuldades do mundo lá fora”, conta o idealizador do projeto que hoje atende 60 crianças no contraturno escolar com atividades lúdicas que têm como base a garantia de direitos e a assistência social.
O coordenador socioeducativo Rudinei Nicola explica que o trabalho da ONG não isenta as obrigações do Estado.
“A instituição complementa as ações do Estado. A gente garante um espaço de contraturno de qualidade que seja complementar aos processos educativos da escola”, explica Nicola que já identificou dificuldades das crianças em aprender com aulas remotas e longe do convívio social imposto pela pandemia.
“Pensando que vamos seguir por um tempo neste modelo híbrido e que isso impacta diretamente, um dos objetivos da instituição é abrir espaço para atender aqueles que têm mais dificuldade. Queremos ajudar a criança a aprender. Muitas crianças que a gente atende não tem a possibilidade de ter um adulto ajudando durante o processo”, finaliza.
A Associação Passos da Criança é uma das organizações parceiras da FreeHelper. E você, já voluntário ou não, pode ajudar. Clicando aqui, você descobre e escolhe qual a melhor maneira de auxiliar!
E, se você ainda não faz parte do time gigante que é a FreeHelper, acesse o site, seja um voluntário e ajude diversas pessoas ao redor do Brasil usando como pontapé inicial o seu conhecimento profissional.

Joao Vieira

Assessor de comunicação parlamentar

Ator e jornalista pela Universidade Positivo. Passou pela comunicação da prefeitura de Curitiba e do Governo do Paraná. Trabalhou como repórter de Cultura a apresentador na TV Educativa do Estado. Foi repórter e apresentador na TV da Assembleia Legislativa do Paraná e atualmente trabalha como assessor de comunicação parlamentar.

               

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