O abandono dos nossos artistas e a desvalorização da arte: estamos cercados de cafonas

19 de agosto de 2021

“Todo mundo deve inventar alguma coisa, a criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a reestruturação da psique. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade”, Nise da Silveira.

Feirinha do Largo da Ordem, Curitiba-PR

É entre uma barraca e outra, na tradicional feirinha do Largo da Ordem, em Curitiba, que artistas de diferentes regiões do Brasil e do mundo manifestam sua arte das mais diferentes formas e nos mais variados estilos.

Não por acaso, é um dos meus lugares preferidos na cidade. Em um dos meus mundos perfeitos, daqueles que a gente cria quando está quase pegando no sono, está a feirinha. Coisa simples: um domingo de sol, admirando a criatividade de cada um, a troca tão simples e ao mesmo tempo tão significativa com quem passa pela região.

Quase nenhum artista tem ponto específico. Se numa semana o espaço próximo ao Cavalo Babão é ocupado por um cantor de rock, na outra o mesmo local pode se tornar um palco a céu aberto para malabarismos impressionantes de quem não canta, mas encanta com movimentos precisos e desafiadores feitos com o próprio corpo. É por isso que eu aproveito ao máximo cada som, cada performance e dança.

Foi no Largo, em uma parada para fotos, que conheci o Jham Montana e, logo na sequência, o Jefferson, já perto do horário de encerramento da feirinha. Eu estava longe, admirando, quando percebi que eles conversavam como amigos. Deduzi, já que não ouvi o papo, que um perguntou ao outro como havia sido o dia de trabalho, se tinha rendido alguma coisa e qual seria o próximo ponto para ligar os instrumentos, ligar a caixa de som e esperar o reconhecimento do público.

O que os dois têm em comum? São artistas de rua, muitas vezes esquecidos por quem passa e por quem deveria oferecer apoio, principalmente neste momento de pandemia.

Jefferson da Cruz tem 35 anos, nasceu em Maragogi, no Alagoas, foi criado em Salvador, na Bahia, e está em Curitiba há três meses. Nos últimos tempos passou por Minas Gerais, São Paulo e Brasília apresentando a música nordestina.

“Tem uma receptividade boa de público por existir uma carência do estilo”, relata o cantor que usa o nome artístico de Jefferson Aitem e pode ser assim encontrado nas redes sociais.

O Jhan Monatana veio de um pouco mais longe. O instrumentista é de Caracas, Venezuela. Ele chegou a Curitiba no início de 2020, meses antes da pandemia mudar todo o cenário mundial, brasileiro e curitibano.

“Mudou muito desde quando eu cheguei. A pandemia bagunçou tudo e eu tive que continuar trabalhando, me adaptando às exigências e sem receber apoio algum”, conta o venezuelano que trabalha há cerca de quinze anos com arte.

Outra coisa em comum entre os dois artistas? Nenhum deles recebeu qualquer auxílio. É como se fossem invisíveis e como se a manifestação que cada um faz, a seu modo, não tivesse valor algum.

Aqui no Paraná, este auxílio específico só entrou em pauta de forma “aparentemente” efetiva neste ano, mais de 12 meses depois do início da pandemia.

O Governo do Estado chegou a lançar o programa Bolsa Qualificação para atender cerca de doze mil profissionais da classe artística no Paraná. A iniciativa prevê a liberação do apoio mediante a participação das pessoas em um curso com aproximadamente 120 horas de duração. A proposta do executivo paranaense não agradou a classe artística que vê a medida como excludente, já que muitos, após meses sem poder exercer o ofício, têm acesso limitado e não foram consultados para a elaboração da política pública que, se for implementada, já chega com atraso significativo.

Eis aqui uma das principais falhas governamentais: elaboração de projetos no escuro sem ouvir os mais afetados, sem pesquisas e sem análise de indicadores. Parece-me que tudo vai pela intuição, pelo caminho “bonitinho, mas ordinário”. Ou o despreparo é o carro-chefe, ou é desonestidade intelectual travestida de boas intenções.

Resgato aqui um trecho do último texto escrito por Fernanda Young, morta em 2016, e que me vem à memória sempre que situações deste tipo aparecem: “A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias”.

Ao que tudo indica, estamos cercados de mais cafonas do que imaginamos um dia. Mais triste ainda é perceber que estamos sendo governados por eles em todas as esferas da administração pública.

O Jefferson chegou a receber algumas parcelas do auxílio emergencial, mas não teve acesso a outros subsídios destinados à classe de artistas, a primeira a parar e uma das últimas a retornar com as atividades. O cantor reflete sobre isso ao dizer sobre a dificuldade do ofício não apenas aqui, mas em todo o mundo.

“O artista tem que se virar. É um indivíduo com uma série de conflitos e que precisa se aceitar para poder trabalhar, porque fazer arte no Brasil e no mundo é muito difícil”, avalia o alagoano que vai mais fundo e destaca a importância do trabalho desenvolvido.

“A partir da arte a gente constrói várias coisas. A gente alimenta a cultura, educa. Então, quem mais tem que estar interessado a não ser quem administra o nosso país? Surgiriam muito mais artistas se houvesse este apoio”.

ARTE TRANSFORMADORA

Os desafios para trabalhar com arte no Brasil não são poucos, pelo contrário. Unanimidade entre todos os trabalhadores da classe é a consciência sobre o papel social que exercem. Com certeza, fator essencial para seguir em frente.

Foi assim com a ONG de Curitiba, a Inclusive nas Artes. É por acreditar na função da Arte que a organização consegue manter suas atividades, não apenas durante a pandemia, mas desde que foi criada com o objetivo de incluir na sociedade pessoas com algum tipo de deficiência.

O projeto de Curitiba conta com a colaboração de três pessoas que dividem as atividades de coordenação, além de outros voluntários. A receita para cobrir as despesas vem, principalmente, do patrocínio de empresas e da colaboração de membros associados.

Atualmente, 50 alunos com idade a partir de 16 anos participam das oficinas que incluem aulas de mosaico, teatro, dança, desenho e pintura. Para o secretário do projeto, Mauro, os desafios impostos nos últimos meses foram grandes, mas a consciência sobre a função social falou mais alto.

“Tivemos que nos reinventar, descobrir como usar ferramentas on-line e ainda teve o desafio de ensinar os nossos alunos. A gente não quer e não pode parar. São crianças, jovens e adultos que precisam de nós, precisam da arte como motivação e instrumento de mudança”, avalia.

O grito da classe artística pedindo valorização não tem sido suficiente para que o Poder Público reconheça a importância não apenas no âmbito educacional, mas também como ferramenta de inclusão social e aliada a tratamentos de saúde. Aproveito para indicar aqui o filme “Nise: O coração da Loucura”, de 2016, dirigido por Roberto Berliner e estrelado por Glória Pires. A obra conta a história de uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil. Mais do que isso, Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria em nosso país.

Contrária aos métodos agressivos que eram usados no tratamento de doenças psiquiátricas, Nise da Silveira, nascida em Maceió-AL, foi pioneira ao usar a arte como forma de expressão no tratamento de seus pacientes, a maioria esquizofrênicos e que tiveram suas obras expostas em diversos locais do mundo.

A médica criou setores artísticos com oficinas de trabalhos manuais, teatro, esportes, desenho e pintura. Nise enxergou, há quase 80 anos, o poder que a arte exerce na formação social de todo e qualquer indivíduo.

Tenho comigo a certeza de que o mundo poderia ser bem melhor com Nises, Mauros, Jeffersons e Jhans por aí. Melhor com gente que se doa, que olha para o outro e tem a sensibilidade se doar e de curar. Exatamente o que falta aos nossos representantes.

João Vieira

Assessor de Comunicação Parlamentar

Ator e jornalista pela Universidade Positivo. Passou pela comunicação da prefeitura de Curitiba e do Governo do Paraná. Trabalhou como repórter de Cultura a apresentador na TV Educativa do Estado. Foi repórter e apresentador na TV da Assembleia Legislativa do Paraná e atualmente trabalha como assessor de comunicação parlamentar.

               

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