As mentiras que ferem a democracia

10 de dezembro de 2020
As Fake News (termo em inglês para Notícias Falsas) se popularizaram no mundo em 2016 com a eleição do presidente estadunidense Donald Trump. Nesse contexto surgiram diversas notícias para deslegitimar a candidata da oposição Hillary Clinton e até matérias que afirmavam que o então presidente Barack Obama não era nascido nos EUA, mas no Quênia.
O objetivo geral das Fake News é ou legitimar uma ideia e/ou afirmação de um grupo ou pessoa ou manchar a imagem de um oponente geralmente político. O fato de serem notícias bombásticas, muitas vezes compostas de partes verdadeiras e partes falsas, faz com que se espalhem em velocidade absurda e são impulsionadas pela facilidade em compartilhar esse tipo de mensagem através das redes sociais e dos aplicativos de mensagem instantânea.
Essas notícias falsas tiveram papel fundamental nas eleições de 2018 quando foi confirmado que elas eram espalhadas de forma sistemática e automática para favorecer determinados candidatos concorrentes à eleição. Se aproveitando dos algoritmos das redes que multiplicam a realidade com a qual concordamos, o espalhamento das Fake News é um dos fatores que mais ajudam a explicar a atual polarização política e o escalonamento do discurso político para o discurso de ódio.
Para elucidar melhor como a questão das Fake News pode ter impactos sem precedentes na política e na vida dos cidadãos, o filme polonês “Rede de Ódio” disponível no Netflix retrata exatamente como um estudante expulso da universidade consegue através do seu trabalho em uma agência de marketing manipular os resultados das eleições a ponto de gerar violência e ódio para além das telas dos computadores.
Apesar de o método mais comum de apresentação das notícias falsas ser através de manchetes ou pequenos textos fáceis de serem compartilhados com apenas um clique, a manipulação de imagens também se tornou uma forma de falsear informações.
Uma pergunta bastante comum sobre esse é assunto é por que, afinal de contas, tantas pessoas acabam acreditando e compartilhando essas notícias? Uma das explicações vinda da área da psicologia é o conceito de “viés de confirmação”. Essa teoria é baseada na ideia de que costumamos acreditar em notícias que confirmem coisas que já acreditamos e reforcem a nossa visão de mundo e criam aversão a tudo que questiona nossas verdades.
É nesse sentido que as Fake News tornam cada vez mais crítica a polarização e impossibilita o debate político saudável essencial para a manutenção da democracia.
As Fake News e a pandemia de covid-19
A pseudociência é uma forma de apresentar as Fake News relacionadas à ciência. Do terraplanismo ao negacionismo da pandemia, a questão fica ainda mais séria quando tratamos de ciência. Isso porque, em primeiro lugar, essas questões não eram e nem deveriam mais ser motivo de discussão. Quando tratamos do formato da Terra, por exemplo, há décadas esse é um ponto resolvido através do método científico, a Terra é redonda e qualquer tentativa de refutar essa ideia pode facilmente ser desmentida através da lógica científica.
O problema é que desde o início da pandemia, por ser um momento único na história moderna, muito se falou e ainda fala sobre tratamentos, remédios, shots de imunização, vitaminas das mais diversas, chás de todas as plantas que existem e que seriam infalíveis no combate e prevenção à COVID-19. Entretanto, o método científico demanda tempo, longos estudos e métodos de falseabilidade para determinar se é possível colocar em xeque aquilo que está sendo defendido.
Um dos casos mais famosos foi o da hidroxicloroquina defendida por diversos presidentes ao redor do mundo, inclusive o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. As notícias que rodavam diziam que o remédio era milagroso e curava quase a totalidade dos pacientes infectados pelo novo coronavírus. Essas matérias começaram a ser divulgadas antes mesmo de qualquer estudo ter sido feito com o medicamento para comprovar ou não sua eficácia. Meses depois, os institutos de pesquisa mais renomados do mundo e a própria OMS afirmaram que, após extensas pesquisas com grupos controlados e acompanhamento constante, o remédio apresentou pouca ou nenhuma eficácia no combate à doença.
Dessa forma, pediram que fosse suspenso o uso deste medicamento no tratamento da COVID- 19, não só porque ele poderia causar reações adversas em certos pacientes, mas porque só a mera possibilidade levantada pela Fake News de que ele era eficaz fez com que sumisse das prateleiras das farmácias deixando sem acesso os pacientes que fazem uso desse medicamento para tratar doenças para as quais ele realmente tem comprovação científica.
Outro exemplo bastante emblemático do risco da pseudociência e das Fake News em um momento tão delicado foi a sugestão do presidente Donald Trump de que injeções de desinfetante fariam uma limpeza interna e mataria o vírus e protegeria de uma posterior infecção. De acordo com os jornais, depois desse pronunciamento o sistema de saúde dos EUA teve diversas entradas em prontos-socorros pelo país com intoxicações pelo agente.
A própria ideia de que a China criou o coronavírus intencionalmente para prejudicar a economia e a população de seus inimigos políticos e ideológicos, como é o caso dos Estados Unidos da América e de alguns países da Europa, não passa de uma teoria da conspiração com tantas provas científicas quanto à teoria de que ET’s habitam a Terra.
É importante ressaltar que em ambos os casos descritos acima, mas também na quase totalidade das notícias falsas relacionadas à pandemia, não são só uma questão de opinião ou de ideologia política, mas são as vidas das pessoas que estão sendo colocadas diretamente em risco uma vez que, nesse caso, uma mentira pode matar. Isso é ainda mais sério quando vemos que é o presidente de um país, sua maior autoridade, quem está ameaçando a saúde dos seus próprios cidadãos.
A influencia generalizada das Fake News
A área da saúde pública não é a única que sofre com os impactos diretos das notícias falsas. Desde que esse método de fazer política se espalhou mundo afora, as consequências se tornaram cada vez mais visíveis e aumentaram seu potencial danoso.
Não saber em quem depositar nossa confiança é com certeza um dos maiores danos que as Fake News causaram. Essa insegurança quanto aos canais e métodos nos quais confiar nos remete novamente à teoria do “viés de confirmação”, que faz com que estejamos sempre alinhados ao que já acreditamos, mas mais que isso, faz com que em momentos de incerteza preenchamos o vácuo de verdade com nossas próprias crenças.
Sendo assim, está em risco de maneira mais abrangente a própria democracia enquanto sistema de governo e as instituições que a embasam, porque quando até o que é verdade começa a ser questionado e mudado para encaixar em ideologias e visões de mundo específicas, perdemos o amálgama que nos une enquanto sociedade.
Só que nem só da alta política vivem as Fake News, o dia a dia de pessoas é influenciado diretamente em razão dessas notícias. O linchamento virtual é uma das maneiras mais visíveis do quão impactantes podem ser esses danos, e, considerando que as notícias são falsas, os alvos desse linchamento são pessoas inocentes.
Na campanha de 2018, por exemplo, diversos candidatos tiveram suas falas ou fotos adulteradas e se viram sendo xingados, recebendo ameaças de todos os gêneros e colocando inclusive suas famílias em risco em suas redes sociais.
Além disso, as notícias falsas recorrem constantemente ao discurso de ódio contra a população LGBTQI+, contra imigrantes e refugiados. Muitas vezes contêm conteúdo racista, machista ou misógino e ataca profissionais de diversas áreas de atuação, mas principalmente os ligados a causas sociais.
Os defensores dos direitos humanos começaram a ser tachados de defensores de bandidos, de esquerdistas e inclusive passaram a correr risco de vida, como o caso do assassinato da emblemática deputada Marielle Franco, que essa semana completa 1.000 dias sem qualquer resposta das autoridades.
Os defensores das causas ambientais também se viram cada vez mais encurralados por uma política completamente alheia à importância do meio-ambiente e alinhada ao enorme mercado do agronegócio e pela crescente violência contra ambientalistas que deu ao Brasil a primeira posição no ranking de assassinatos desses profissionais.
Através desses exemplos é possível notar que defender as causas sociais se tornou cada vez mais difícil e um verdadeiro ato de coragem, porque questionar e enfrentar a nova realidade acreditando na luta popular e na busca por um mundo melhor pode colocar quem está à linha de frente como alvo maior dos bombardeadores de Fake News.
Como se proteger?
Apesar de requerer medidas simples, muitas pessoas ainda continuam compartilhando as notícias falsas e espalhando desinformação. Sendo assim, devemos retomar quais tarefas básicas de Fact Checking (ou checagem de informações) podem ser feitas rapidamente e provar que esse processo pode até ser mais divertido do que se imagina.
O primeiro passo da proteção contra Fake News é desconfiar das notícias que chegam até nós. Nessa fase vale observar se ela está sendo veiculada em uma fonte jornalística confiável e respeitada, ler a matéria completa e notar erros básicos de português e a qualidade do texto, ver quem são os autores e a data em que a matéria foi publicada. Uma característica clássica das notícias falsas é que geralmente pedem para serem compartilhadas, então todos esses são sinais de alerta.
Outra técnica muito importante para não cair nas mentiras na internet é procurar descobrir se outros veículos de informação estão publicando a mesma notícia, matérias de uma única fonte devem despertar desconfiança. Além disso, é importante nesse passo relembrar que muitas vezes as Fake News não são compostas totalmente de mentiras, vindo daí a importância novamente de ler a matéria completa.
Por último, ao identificar uma matéria falsa, você deve denunciar. As redes sociais hoje já têm uma ferramenta que te permite denunciar um conteúdo por ser mentiroso, assim como os grandes jornais têm em seus sites lugares exclusivos para que você envie a reportagem para que eles façam a checagem das informações e as repassem para o maior número possível de pessoas através de suas plataformas.
Além disso, existem sites como o E-farsas e boatos.org que fazem a conferência das notícias falsas mais famosas, então, se você está em dúvida, pode ser que algum desses já tenha desmistificado aquela matéria duvidosa.
Agora, se você quer saber das Fake News mais absurdas e, ainda, dar risada, eu recomendo o quadro “Fake em Nóis” do canal MOV no Youtube. O quadro é apresentado pelo paleontólogo e youtuber Pirulla e pelo checador de fatos Gilmar Lopes (dono do site E-farsas) de forma engraçada e descontraída. Comentando das maiores teorias da conspiração até as estranhas previsões feitas pelos Simpsons, o quadro faz sucesso na plataforma nos mantendo informados, desvenda as mentiras e nos diverte sem tirar o tom de importância do assunto.

Alinne Ross

Redatora do blog Diário das Nações

Bacharel em Relações Internacionais pelo UNICURITIBA e atualmente pós-graduanda em História e Relações Internacionais pela PUC-PR. É redatora voluntária de política internacional para o blog Diário das Nações e editora-chefe da revista O Diário. Além disso, é pesquisadora nos temas de extremismos político e religioso e entusiasta da absorção de temas da psicologia para aumentar a efetividade das análises de conjuntura nas Relações Internacionais.

               

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