A interdependência dos riscos globais

01 de abril 2021
O Relatório de Riscos Globais 2021, publicado pelo Fórum Mundial Econômico, no início deste ano, apresentou os resultados da última Pesquisa de Percepção de Riscos Globais (GRPS), além de uma análise das divisões sociais, econômicas e industriais, incluindo a relação de riscos destas divisões.
A pesquisa foi elaborada por cerca de 700 pesquisadores e tomadores de decisão em todo o mundo. Na análise eles consideraram os riscos globais, as interações entre eles e quais são as oportunidades de ação para mitigar as principais ameaças e reestruturar o mundo para este ano e as próximas décadas.
De acordo com Carolina Klint, diretora da Marsh McLennan, empresa líder em gerenciamento de riscos e estratégia, o relatório reflete a profundidade e desigualdade do impacto da pandemia, explora como os desafios globais críticos foram acentuados e remodelados e destaca a necessidade de abordar esses riscos de uma forma mais colaborativa.

Capa do Relatório de Riscos Globais 2021 Fonte: Fórum Mundial Econômico

Principais resultados
Quando os entrevistados foram questionados sobre os riscos no panorama de curto, médio e longo prazo, os cinco riscos mais votados que se tornarão principais ameaças nos próximos 2 anos foram doenças infecciosas, crises de subsistência, eventos climáticos extremos, falha na segurança cibernética e desigualdade digital.
No médio prazo, de 3 a 5 anos, os mais votados foram estouro de bolha de ativos, quebra de infraestrutura de tecnologia da informação, instabilidade de preços, choques de commodities e crises com dívidas. No longo prazo, entre 5 e 10 anos, os riscos mais evidenciados pelos entrevistados foram armas de destruição em massa, colapso do Estado, perda de biodiversidade, avanços tecnológicos diversos e crises de recursos naturais.
Após esse primeiro questionamento, os participantes avaliaram a probabilidade do risco global individual em escala de 1 a 5 (de improvável a muito provável) no cenário de dez anos e o impacto, também em escala de 1 a 5 (de impacto mínimo a impacto catastrófico) em dez anos. Sendo assim, os principais riscos levantados, em probabilidade e impacto são detalhados abaixo.
MAIORES RISCOS (por probabilidade)
•Clima extremo
•Deficiência nas respostas climáticas
•Danos ambientais causados pelo homem
•Doenças infecciosas
•Perda de biodiversidade
•Concentração de capacidades digitais
•Desigualdade digital
•Fratura nas relações interestaduais
•Falha de segurança cibernética
•Crises de subsistência
MAIORES RISCOS (por impacto)
•Doenças infecciosas
•Deficiência nas respostas climáticas
•Armas de destruição em massa
•Perda de biodiversidade
•Crises de recursos naturais
•Danos ambientais causados pelo homem
•Crises de subsistência
•Clima extremo
•Crises com dívida
•Quebra de infraestrutura de TI
Dentre os dez maiores riscos por probabilidade, quatro são ambientais e três tecnológicos. Quando os riscos são avaliados por impacto, cinco dos dez riscos são ambientais. O que apresentou maior impacto foi referente a doenças infecciosas, principalmente dentro do cenário da pandemia de COVID-19, e suas possíveis consequências.
Nos últimos dez relatórios, tanto em probabilidade quanto em impacto, os riscos ambientais foram os mais mencionados. Em relação à probabilidade, o clima extremo é um risco que se fez presente nos últimos oito relatórios anuais, sempre em primeiro ou segundo lugar de importância. Outros riscos ambientais como deficiência nas respostas climáticas, desastres naturais e perda de biodiversidade foram categorizados como grandes ameaças.
Nota-se que apesar das emissões globais de CO2 terem caído 9% no primeiro semestre de 2020, pelo forçamento de paralização de muitas indústrias e meios de transporte, a perspectiva é de que pós pandemia as emissões globais sigam a curva de crescimento dos últimos anos. O comprometimento das empresas em busca de produções mais sustentáveis tende a ganhar espaço e a bioeconomia aparece como uma alternativa bastante completa, pois consiste em sistemas de produção com vistas à substituição de recursos fósseis e não renováveis.
Entre os riscos tecnológicos, além dos mencionados como os maiores riscos por probabilidade e impacto, como concentração de capacidades digitais, desigualdade digital, falha de segurança cibernética e quebra de infraestrutura de tecnologia da informação, nos anos anteriores fraude ou roubo de dados foi um risco bastante citado.
A desigualdade digital foi um fator acelerado pela pandemia de COVID-19, que proporcionou a expansão do e-commerce, da educação a distância e do trabalho remoto. Além disso, a dependência de algoritmos que possam acentuar as desigualdades pode prejudicar o bem-estar e amplificar fraturas sociais. Como mitigação desses riscos, as empresas e os governos precisam buscar novas parcerias e abordagens para impulsionar a coesão digital sem comprometer o avanço tecnológico.
Já em relação aos riscos econômicos, nos últimos anos, a disparidade de renda, o desemprego, desequilíbrios/crises fiscais são os mais evidentes. Mesmo com a previsão da criação de 100 milhões postos de trabalho em 2025, cerca de 85 milhões de trabalhos podem ser automatizados em cinco anos.
Quando falamos no espectro social, os riscos atrelados às doenças infecciosas dispararam neste ano, mas em anos anteriores foi bastante mencionado também a questão de migração involuntária, crises hídricas e disparidade de renda.
Por fim, em relação aos riscos geopolíticos, os ataques terroristas, conflitos entre Estados, falha da governança nacional e principalmente armas e destruição em massa foram categorizados como os mais importantes.
O relatório também apontou como as principais ameaças iminentes, ou seja, aquelas mais prováveis nos próximos dois anos, as crises ocupacionais e de subsistência, desilusão generalizada entre os jovens, desigualdade digital, estagnação econômica, danos ambientais causados pelo homem, desgaste da coesão social e ataques terroristas.
O futuro é incerto
Os jovens possuem um papel muito importante na atual geração e para a construção das próximas, mas eles enfrentam grandes desafios para sua educação, perspectivas econômicas e saúde mental. A falta de oportunidades e a falta de confiança nas empresas e governos são grandes ameaças a curto prazo. Estima-se que 80% dos jovens venham a ter a saúde mental afetada num momento pós pandêmico. Sendo assim, a melhor forma de assegurar um futuro com perspectivas é ouvir o que eles têm a dizer, de maneira a os envolver ativamente no processo de recuperação da pandemia e das atividades econômicas e políticas.
Em colaboração com o Global Future Council on Frontier Risks, o relatório também apresentou riscos que são menos conhecidos, mas que possuem grandes impactos caso manifestados. De acordo com os especialistas, guerras acidentais e a mídia social com tecnologia de inteligência artificial explorada para se espalhar desinformação podem causar um caos social. A extração de informações pessoais, seja pelo governo, empresas ou até mesmo por indivíduos também foi uma questão levantada, assim como o possível colapso das democracias estabelecidas.
A engenharia genética também foi um ponto de destaque com a seleção de capacidades específicas e consequências éticas indeterminadas; o derretimento do ártico e a possível liberação de microrganismos pouco conhecidos, o controle de químicos e a implantação em pequena escala de armas nucleares.
Como resposta aos riscos mencionados, principalmente aos ligados ao enfrentamento da pandemia de COVID-19, o documento apresentou quatro oportunidades de governança para fortalecimento e recuperação geral dos países, empresas e comunidade, sendo elas: formulação de estruturas analíticas com uma visão holística e baseada em sistemas de impactos de risco; investimentos em “campeões contra o risco” de alto perfil para incentivar a liderança nacional e a cooperação internacional; melhora das comunicações de risco e combater a desinformação; e exploração de novas formas de parceria público-privada na preparação contra os riscos.
Com tantas mudanças acontecendo no momento em que estamos vivendo, é difícil visualizar um futuro nítido. Com esses apontamentos do relatório e mais as diversas pesquisas de tendências que estão disponíveis, podemos ter uma breve noção dos principais riscos e como mitigá-los e/ou enfrentá-los.
A participação da sociedade, principalmente de jovens ativos, é extremamente importante nesse momento. A acessibilidade digital, produções mais sustentáveis e colaboração entre os países são pontos chave para os próximos anos.
O site do Fórum Mundial Econômico possui um gráfico interativo, no qual é possível explorar a rede de riscos globais. Para mais informações acesse: https://www.weforum.org/global-risks

Gabriela Maia

Engenheira Florestal

Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2018. Atualmente cursa MBA em Gestão Ambiental pela UFPR e trabalha na Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal (APRE). Participa com voluntária no Youth Action Hub (YAH), no desenvolvimento de projetos vinculados aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)

               

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