A importância do incentivo à leitura

20 de maio de 2021
Você tem o hábito de ler? Com que idade adquiriu esse hábito? Como ele se deu início?
Caso a resposta para a primeira pergunta seja positiva, quero que pare e pense por alguns momentos quando foi o início dessa sua jornada com a leitura. Não se lembra? Isso significa que esse momento ocorreu na infância ou no início da adolescência, e é muito provável que foi por incentivo de alguém.
Caso a resposta para a primeira pergunta seja negativa, peço que continue acompanhando o artigo, pois sua visão sobre a leitura pode mudar. Pelo menos um pouquinho.
Eu comecei a ler bem cedo. Posso dizer que foi por incentivo dos meus pais e familiares, pois tendo uma família com muitos professores e as casas que frequentei eram sempre repletas de livros. Já nos meus primeiros anos eu demonstrava interesse, tentava manusear alguns livros infantis e passava boa parte do meu tempo analisando as figuras. Ao perceberem isso, meus pais passaram a me presentear com livros em meus aniversários, e desde então sou praticamente uma fanática por eles.
Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos brasileiros.
As perguntas que fiz no começo do artigo, na verdade, vieram de reflexões a respeito da importância do hábito da leitura que eu tive durante a graduação em Letras. Da mesma forma me fizeram pensar sobre o intermédio de meus pais e se isso foi um fator importante para que eu me tornasse a leitora assídua que sou hoje.
Então isso me levou a pensar na falta desse incentivo no Brasil, e como ele pode ser uma condição significativa para que o hábito de ler seja mais popularizado no país.
A princípio serão abordadas as consequências positivas que ler com frequência pode propiciar para a vida das pessoas.
Ser uma apaixonada por livros pode fazer com que eu tenha uma opinião forte a respeito disso, mas vários estudos mostram a importância da leitura no desenvolvimento do intelecto e nas habilidades de comunicação e conhecimento do mundo e de si próprio.
Dados mostram que o ato de ler ajuda a estimular o cérebro, a desenvolver o senso crítico e aguçar a imaginação e criatividade. Em consequência disso, quem lê com frequência consegue se expressar melhor, tanto na fala quanto na escrita, além de demonstrar coerência no modo de formular o pensamento nos diálogos interpessoais e argumentar com maior facilidade devido ao amplo conhecimento do léxico, ou seja, das palavras.
Além desse desenvolvimento no intelecto, o conhecimento de mundo fica mais amplo à medida que se aprende, de forma didática, sobre questões da vida, o certo e o errado.
Com uma taxa de analfabetismo de 6,6%, dados de 2019 de acordo com a Pnad, a qualidade da educação e os preços exorbitantes do livro, a leitura é inacessível para a maioria da população brasileira. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil que saiu em 2020, feita pela Instituto Pró-Livro, o brasileiro lê em média 2 a 3 livros por ano. São números desanimadores, mas faz muito sentido se considerarmos a realidade do país.
Ainda assim, no ano de 2020 houve um crescimento de 0,87% de livros vendidos em relação ao ano anterior. Pensando positivamente, isso é um grande avanço, correto? Mas esse aumento só se deu a partir de março, ou seja, logo após o início da pandemia; e a maioria desses livros comprados são no formato digital. Com o decreto da quarentena, pessoas que já tinham o hábito de ler, passaram a ler mais.
Mas toda essa conjectura só diz respeito aos brasileiros que já são leitores. Esse hábito dificilmente surge do nada. E é por isso que será falado sobre o valor do incentivo.
A escritora Ruth Rocha disse uma vez: “Leitura, antes de mais nada é estímulo, é exemplo.” Evidentemente o incentivo à leitura não é a solução de todos os nossos problemas, mas ele é um passo inicial para criar futuros leitores e grandes pensadores, além de contribuir para que as pessoas tenham uma visão mais ampla sobre a vida a partir do conhecimento.
Podemos separar dois possíveis momentos de início da jornada de um leitor: a infância ou a adolescência. Como nem tudo é tão fácil quanto parece, existem, sim, aqueles que descobrem esse interesse na fase adulta, mas trabalharemos com a regra, e não com a exceção. Tanto a infância quanto a adolescência são momentos cruciais para a formação do indivíduo como ser social. Ou seja, são esses os momentos que irão moldar a personalidade de alguém, pensamentos, escolhas e posicionamentos. Nesse sentido, pensemos como se dá o primeiro contato com o livro nesses dois momentos.
Na infância, quem geralmente influencia a leitura são os pais ou responsáveis. Em um primeiro momento, o gosto pode surgir a partir do storytelling, ou seja, o ato de contar histórias.
Do inglês, “story” significa história e “telling” significa contar, essa atividade ajuda a desenvolver a linguagem infantil, questões de autoconhecimento e a possibilidade de sempre existir uma resolução para problemas. Esse estímulo para a criança, quando feito de forma descontraída e agradável, faz com que desde esse instante a leitura seja associada a uma atividade prazerosa. Dessa forma, é muito comum que esse hábito seja estendido até a vida adulta.
Na adolescência, a leitura incentivada na escola acaba sendo estabelecida não como algo prazeroso, mas sim como uma obrigatoriedade, o que já pode acabar estragando esse primeiro contato. É comum nas escolas, principalmente para as salas de Ensino Médio, que as aulas de literatura tragam leituras de livros clássicos pedidos em listas de vestibulares. A linguagem, muitas vezes erudita, distancia o adolescente da leitura, principalmente por não condizer com sua linguagem cotidiana. O que poderia vir a ser um hábito saudável passa a ser uma atividade aversiva para muitos.
No Brasil, com milhares de famílias sem instrução educacional, é ilusório pedir que os pais incentivem os filhos a lerem, considerando que muitos não finalizaram o ensino básico. Cerca de 55% das escolas públicas não possuem biblioteca, e as que possuem, em sua maioria, sobrevivem de doações de livros. Com a desigualdade social cada vez mais gritante, não há chances de adquirir um exemplar de livro antes de qualquer necessidade básica.
Considerando todo esse cenário brasileiro, parece utópico pensar que o país possa crescer em números de leitores. Mas como ser brasileiro é encontrar um jeitinho para tudo, uma solução que vem mostrando resultados positivos são projetos de leituras em escolas públicas e em bairros carentes.
Realizados de diversas formas com diferentes atividades, o objetivo primeiro dos projetos de leitura acaba sempre sendo o mesmo: incentivar o hábito de ler. Através desse hábito, a criança então vem a apresentar, aos poucos, os efeitos positivos que apontam os estudos a respeito da leitura constante.
A sugestão, para quem gosta de fazer a diferença, é contribuir com esses projetos, primeiramente nas escolas e bairros mais próximos.
Com pessoas mal instruídas ou analfabetas, ações como a participação em projetos que visem contribuir com o aprendizado, a ajuda com o storytelling e o encorajamento ao contato com o livro já faz parte de um grande primeiro passo. Assim como doações para escolas públicas e bibliotecas: o livro parado na estante só ajuda na estagnação do conhecimento!
Em escolas onde alguns projetos são realizados, as crianças se mostraram mais ativas dentro da sala de aula e na comunicação verbal com os professores e com os outros colegas. Passaram a desenvolver melhor o próprio texto nas questões de ortografia e coerência, além de se mostrarem cada vez mais criativas em outras atividades da escola.
Em bairros do Rio de Janeiro, no interior de São Paulo, em alguns estados do Nordeste, e muitas outras regiões brasileiras, os projetos realizados em bairros carentes já beneficiaram milhares de crianças. Tanto na questão da educação com estímulo da curiosidade e criatividade quanto na troca de conversas. Um desses projetos é o Apadrinhe um Sorriso, que nasceu em uma comunidade carente em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.
Tendo isso em vista, o novo leitor encontra diversas possibilidades para interpretar o mundo em que vive, desenvolve gradualmente o senso crítico e as habilidades de comunicação. É possível concluir que o incentivo à leitura, principalmente na infância, é essencial para o crescimento do brasileiro como sujeito ativo da sociedade. E veja só, todos nós podemos ser responsáveis por isso!

Maria Clara Telles

Professora e Redatora

Formada em Letras na UNESP, Maria Clara gosta de conhecer novos idiomas e de falar e escrever sobre literatura. Acredita que a escrita é uma das melhores formas de expressar o que sentimos, além de ser um ótimo veículo para informação e comunicação.

               

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